Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Cara de parva

Chegou a pensar que o seu sorriso não voltaria a surgir. Um dia, sem mais quê, a sua cara aparvou. As comissuras labiais esticaram para cada um dos lados da sua mais recente e esperada cara de parva. O maxilar inferior começou a doer na curvaura da zona de encaixe com o superior. Não consegue tirar aquele sorriso estúpido da cara, apesar da dor. Apesar das dores. A dor sabe-lhe bem. O masoquismo a par com o receio do desconhecido passível de proporcionar desilusão, felicidade, dor, complementaridade, apatia, partilha, complementado por um olhar que a faz estremecer e pensar em coisas boas bonitas estranhas e desejar total entrega. Tudo? Cedo. Mas quando a olha daquela forma diferente, que é só para ela, só porque por um conjunto de acontecimentos inesperados (a que vulgarmente apelidamos de destino), numa certa noite de verão, um beijo surgiu, inesperado, estranho, fresco, revigorante, ela entra numa espécie de transe em que o mundo pára à sua volta. Ele oferece-lhe laranjas. Ela fica pelo beicinho. Aquele seu jeito... Brilha devagar. Ela tem medo. Quer dar um mergulho no mar, mas tem receio que ao emergir ele não queira dar-lhe a mão e celebrar com ela um novo nascer do sol. Ainda assim, sorri, erguendo lentamente a pontinha do seu véu, contando os segundos, anseando por mais um olhar.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

Dia Mau

Não quis guardá-lo para mim E com a dimensão da dor legitimar o fim Eu dei mas foi para mostrar Não havendo amor de volta Nada impede a fonte de secar Mas tanto pior E quem sou eu para te ensinar agora A ver o lado claro de um dia mau Eu sei a tua vida foi Marcada pela dor de não saber aonde dói Mas vê tu bem não houve à luz do dia Quem não tenha provado O trago amargo da melancolia E então rapaz Então porquê a raiva se a culpa não é minha Serão efeitos secundários da poesia Mas para quê gastar o meu tempo A ver se aperto a tua mão Eu tenho andado a pensar em nós Já que os teus pés não descolam do chão Dizes que eu dou Só por gostar Eu vou dar-te a provar o trago amargo da solidão Ornatos Violeta

Quarta-feira, Março 22, 2006

Uma em plena tarde...

Hoje vou apanhar uma. Não quero deprimir. Mas quero apanhar uma. Não devia ser assim. Mereço? Por um lado... Mas custa como o caralho... Ok, tudo bem. Povoam-me pensamentos contraditórios. Estranhos. Não me reconheço, às vezes... ou talvez sim... talvez não queira aceitar que sou mesmo assim... Não estou bem comigo... isto já vei durando há demasiado... Preciso de qualquer coisa... Sinto-me um pouco perdida... Não sei muito bem, na verdade, o que ando para aqui a fazer... Parece que me puseram uma venda e que ando para aqui às cegas a palpar qualquer coisa que não sei o que é, nem se quero, nem se realmente me apetece... Preciso de a tirar,... mas na verdade não me sinto com força anímica suficiente para o fazer... Que monte...

Sexta-feira, Março 03, 2006

Não me apaixono. Não, não me apaixono. Gosto de sentir as pernas a tremer... mas quando as pernas ficam bambas... desequilíbrio... o céu, as nuvens... o chão. E pode doer... E sente-se. E o galo... e o hematoma...? Não, não me quero apaixonar. Ponto assente.

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Rouquidão

Oh efémera rouquidão. Oh dorzinha de cabeça que me incendeia as têmporas e me desconforta o pescoço e a cabeça posicional... Oh... O pingo escorre-me pela mucosa da narina direita... À minha frente fala-se em idioma africano. Atrás, uma espécie de russo... não, espera, por entre as gargalhadas descortino um sotaque brasileiro. Será italiano? - "E a minha sorte... Até ao fim do mês... - Estoi enamorado... - Eu, quando 'cásá'... Êli vai vivê sozinhu... Êli vai consigui?" Linda Lisboa! Mi aguarrdji!!! Estou sorridente, saltitante, só me apetece gargalhar, gritar com o vento de um ponto mais alto, estar com toda a gente, abraçar toda a gente, beijar todos, um a um, e dançar, e dançar, e dançar, dançar...!! "Veni, vidi, vici!" Doem-me os ombros, o pescoço e vários pontos distintos, simétricos, tudo merda. Tudo merda. Quero festejar, correr em verdes campos, rio, mato, gritar a plenos pulmões até que me doa a garganta, fique sem voz, ou que me passe esta rouquidão (em que me recuso inegavelmente a sequer pensar na remota possibilidade possibilitiva de negociar o mais ínfimo electrãozinho de proposta de a aceitar. Não, não abdico. Já disse que não. Ponto.), quero dançar, esvoaçar por entre as nuvens, sob as asas de uma borboleta, simplesmente procurando uma estrela. A luz está sempre lá. Aqui. Abre os olhos, pequena, abre. Porque não há, nem pode haver, maior no mundo. Bom dia muro cinzento. Bom dia relvado verde pintalgado de lixo. Bom dia estação cinzenta. Bom dia árvores, pedras, casas, fábricas. Bom dia senhores operários. Bom dia engravatados. Bom dia esfomeados. Bom dia cabrões. Bom dia crianças. Bom dia gente. Bom dia montes do meu coração. Um grande bom dia. Bom dia gente, alvíssaras, saudações académicas, olá! Dia bom para ti, oh sol, sem te ver mas, já sabes, sentindo o calor no corpo, a luz nos olhos cemi-cerrados. Bom dia cóccix. É sempre uma honra, como direi, um prazer. Deleite... (felizmente, já agora, posicionalmente aliviável) Olá nuvens. Bom dia suor, correria, stress,, aprendizagens, estudo, busca de motivação, procura de satisfação. Bem-vindos acordares rabujentos, procissões enregelantes em estado zombie, sonâmbulo, lamentos e invenções de possíveis trocas ou faltas. Bom dia nuvem farfalhuda fotográfica, branquinha, suculenta, apetecível. Densa. Densidade. One life gotten. É minha, agora sou eu. Cá vou, catapultante, sim, sem medo de cair. Medo? De quê? De fracturar... ironia... Não, gosto mesmo muito deste vôo. Sim!, bom!, estou! ...Ainda estou rouca, mas já passa. "2006 vai ser XL" Sim, cliché, sim, fora de contexto? Eu sinto que sei voar. Cá no fundo. Prometo que a seguir procuro o gato. E literalmente também. Sorrio. E quando um desconhecido te sorri. Descanso os dedos. Pouso as unhas. Vou ter de tirar o verniz.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Grito

Não quero ir dormir. não quero acordar cedo amanhã. Não quero ter de picar o ponto, percorrer aqueles corredores podres, vestir aquela casca imunda. Não quero ter de respirar. Não quero ter dores. Não quero ter de vestir a farda do socialmente correcto, não quero ter de me calar por ser miúda nova. Não quero que me doam as costas por preferir fazer tudo sozinha, para não incomodar os senhores-pessoa-holística-que-vá-para-o-caralho. Não quero ter de me calar para não arranjar chatices. Só queria poder ser eu...

Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Café de Sempre

“Esperei-te no fim de um dia cansado à mesa do café de sempre… O fumo, o calor e o mesmo quadro na parede já azul poente… Alguém me sorri do balcão corrido, alguém que me faz sentir Que há lugares que são pequenos abrigos para onde podemos sempre fugir…” O café de sempre, aquele lugar cá dentro que guardamos e deixamos guardar sem poder intervir grande coisa a respeito, para aqueles que, num momento verdadeiramente especial da nossa vida cruzaram o nosso caminho, e nos acompanharam naquela direcção. O café de sempre, aquele abrigo que mesmo não estando fisicamente presente, sentimos como um lugar onde palavras não seriam precisas para um momento de compreensão e sintonia. O café de sempre, aquele café onde horas das nossas vidas foram passadas, onde incontáveis segredos e dúvidas, tristezas e aventuras, angústias e brilho, parvoíce e gozo se deixaram gravar em mesas e cadeiras, balcão e chávenas de café, cinzeiros e máquinas de touch plus. E eu vou esperando, sentada na cadeira de uma mesa com cinco lugares, fumando o meu cigarro, depositando a cinza no cinzeiro já cheio de beatas de tantos mundos, bebericando o meu chá de cidreira/mel para dois, ouvindo a música que me lembra momentos brilhantes das nossas vidas, e sorrio, enquanto não chegam, ansiosa daquele olhar em que lemos que “seremos cúmplices o resto da vida, ou talvez só até amanhecer”.